C-Saúde

Contra a desinformação, a resposta foi conjunta: lições da Zambézia

Quando os rumores e o medo se tornam mais contagiosos do que qualquer doença, as consequências podem ser fatais. Em Abril e Maio de 2026, Moçambique viveu isso em primeira mão.

Entre Abril e Maio de 2026, pelo menos 40 pessoas perderam a vida e mais de 70 ficaram feridas em resultado de violência motivada por desinformação, rumores e pânico colectivo associados ao Síndrome de Koro, um transtorno psicológico caracterizado pelo medo intenso e irracional de que os órgãos genitais estão a encolher ou a desaparecer. Os episódios de violência afectaram as províncias da Zambézia, Sofala, Manica, Niassa, Nampula e Cabo Delgado, segundo relatos na imprensa nacional e internacional.

A Zambézia foi das províncias mais severamente atingidas. Vários colaboradores da C-Saúde vivenciaram essa violência na primeira pessoa: provedores de saúde e outros ligados ao sector foram um dos grupos acusados de "roubar" ou atrofiar os órgãos genitais de membros das comunidades que servem.

O resultado foi imediato e concreto: algumas unidades sanitárias estiveram fechadas durante semanas, nomeadamente nos distritos de Mocubela, Pebane e Maganja da Costa, comprometendo o acesso a cuidados de saúde essenciais.

Face à urgência da situação, foi constituído um grupo de trabalho sob orientação da Direcção Provincial de Saúde da Zambézia, reunindo os Serviços Provinciais de Saúde, o Conselho Provincial de Combate ao HIV e SIDA, a C-Saúde e líderes religiosos da província - representados pelo Conselho Islâmico de Moçambique (CISLAMO), o Conselho Cristão de Moçambique (CCM) e a Plataforma Inter-Religiosa de Comunicação para a Saúde (PIRCOM). Das estratégias conjuntas para combater os rumores e a violência a estes associada resultaram materiais de comunicação em que diferentes líderes religiosos assumiram o protagonismo das mensagens.

O Síndrome de Koro é um transtorno psicológico reconhecido clinicamente, desencadeado por stress e ansiedade agudos, frequentemente amplificados por boatos, crenças culturais e o chamado “contágio social”, o processo pelo qual o medo se propaga entre membros de uma comunidade como se se tratasse de uma infecção. Não há mecanismos fisiológicos que causem o desaparecimento de órgãos genitais: o que as vítimas sentem é real, mas a sua origem é mental e é tratável.

Este não foi o primeiro surto de desinformação com impacto directo na saúde pública em Moçambique, nem sequer no presente ano: no início de 2026, comunidades em Nampula perseguiram e apedrejaram activistas e agentes de saúde no contexto de um surto de cólera, acusando-os de serem causadores da doença. Antes disso, episódios semelhantes marcaram campanhas de vacinação e de tratamento de diversas doenças em várias províncias do país.

O padrão é recorrente: desinformação que transforma os próprios agentes de saúde em alvos, afasta as comunidades dos serviços e agrava as crises que se propõe resolver. Os exemplos mencionados apontam para a necessidade urgente de estratégias robustas e permanentes de comunicação em saúde, gestão de desinformação e rumores e do envolvimento comunitário, antes que o próximo rumor se dissemine.

 

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