“Agora sei imediatamente se o meu tratamento está a funcionar. Isso dá-me força para continuar.” — Filomena Vili, pessoa vivendo com HIV, Quelimane, Zambézia
Durante muitos anos, o sistema de saúde de Moçambique enfrentou grandes desafios na gestão e disponibilização atempada de resultados laboratoriais essenciais, como a carga viral, fundamentais para o seguimento clínico das pessoas que vivem com HIV. O processo era lento e manual: os resultados gerados no Sistema de Informação Laboratorial (DISA) precisavam ser impressos e entregues aos clínicos, ou inseridos manualmente, um a um, no Sistema Eletrónico de Seguimento de Pacientes (SESP). Erros de digitação, falta de informação e longos tempos de espera faziam parte da rotina diária.
Filomena Vili recorda os dias em que precisava regressar várias vezes à unidade sanitária apenas para obter o resultado da sua carga viral. “Por vezes voltava três vezes e ainda não havia resultado”, conta. Hoje, tudo mudou. Assim que a sua amostra é colhida, é introduzida no sistema DISA e, uma vez processada num laboratório de referência, o técnico de medicina da sua unidade pode visualizar o resultado imediatamente no telemóvel.
Para transformar esta realidade, o Ministério da Saúde de Moçambique, com o apoio do Governo dos Estados Unidos e do CDC, em parceria com a equipa de Sistemas de Informação em Saúde da C-Saúde e outros parceiros de implementação, investiu em soluções inovadoras de interoperabilidade digital. A ligação automática entre o DISA e o SESP permite agora que os resultados laboratoriais sejam transmitidos eletrónica e instantaneamente para o prontuário de cada paciente, gerando o e-Lab, um formulário laboratorial eletrónico.
Atualmente, assim que o exame é concluído no laboratório de referência, geralmente a centenas de quilómetros da unidade sanitária, os clínicos podem aceder aos resultados em tempo real.
“Before, we used to wait for days; now, on the same day, I can counsel the patient and make clinical decisions based on up-to-date information,” explains Lúcio Assis, a Clinical Officer at 24 de Julho Health Center.
O impacto é visível: o tempo de espera entre a colheita da amostra e a receção dos resultados foi reduzido de semanas para dias, reforçando a qualidade dos cuidados prestados. A qualidade e a integridade dos dados também melhoraram, graças à utilização de aplicações que seguem padrões globais, como o HL7, que previnem duplicações e permitem a correção de discrepâncias identificadas. A integração com o SESP possibilita ainda o rastreio de cada resultado, garantindo que nenhuma informação se perca.
Em Quelimane, Lúcio acrescenta: “A interoperabilidade mudou completamente o nosso trabalho. Hoje tratamos as pessoas com mais confiança — sabemos que o sistema está a trabalhar connosco, e não contra nós.”
Mais do que um avanço tecnológico, esta integração representa um passo estratégico rumo ao alcance das metas 95-95-95: garantir que 95% das pessoas que vivem com HIV conheçam o seu estado serológico, 95% estejam em tratamento e 95% alcancem a supressão viral.
Inicialmente lançada na província da Zambézia, com 144 unidades sanitárias sincronizadas, a plataforma de interoperabilidade expandiu-se e atualmente abrange todas as províncias do país, com mais de 500 unidades sanitárias a utilizar o sistema e mais de um milhão de resultados de carga viral transmitidos ao SESP nos últimos 12 meses. A equipa de interoperabilidade da C-Saúde desempenhou um papel fundamental no desenho e desenvolvimento da solução, bem como na prestação de apoio técnico aos parceiros clínicos de implementação em todo o país para a sua operacionalização.
A interoperabilidade DISA–SESP é um símbolo de colaboração e visão — uma conquista coletiva do Ministério da Saúde, da C-Saúde, do Governo dos Estados Unidos, dos profissionais de saúde dedicados e de todas as pessoas em tratamento antirretroviral, que agora recebem os seus resultados no momento certo.


