
Quando uma mulher chega tarde à primeira Consulta Pré-Natal (CPN), quando alguém recusa prevenir o HIV aderindo à profilaxia pré-exposição (PrEP) ou abandona o Tratamento Antirretroviral (TARV) do HIV, os indicadores registam uma fraca adesão aos serviços de saúde. Estas formulações são fundamentais para monitorizar a qualidade dos serviços prestados, mas escondem uma pergunta essencial que nem sempre é colocada às próprias comunidades: porquê?
Foi precisamente essa pergunta que levou a C-Saúde, em coordenação com os Serviços Distritais de Saúde, Mulher e Acção Social (SDSMAS) de Mopeia, às comunidades de Dande, Malulo e Marruma, na província da Zambézia, entre os dias 8 e 12 de Junho. Durante cinco dias de actividades de auscultação, mobilização e sensibilização comunitária, mais de 230 pessoas - entre membros da comunidade, líderes comunitários e religiosos, membros dos Comités de Saúde, Agentes Polivalentes de Saúde (APS) e representantes de instituições locais - reuniram-se para conversar sobre saúde materna e resposta ao HIV.
O que aconteceu em Mopeia reflecte um princípio amplamente sustentado por evidências científicas: ouvir as comunidades não é apenas uma etapa que antecede a intervenção. É, em si, uma forma de intervir.
O diálogo como ponto de partida para a mudança
Desde a Declaração de Alma-Ata (1978), a Organização Mundial da Saúde reconhece o envolvimento comunitário como um componente essencial dos cuidados de saúde primários. Este princípio ganhou novo impulso em 2024, quando os Estados-membros da Assembleia Mundial da Saúde adoptaram a Resolução WHA77.2, comprometendo-se a reforçar o envolvimento social e a participação activa das comunidades nas decisões que afectam a sua saúde.
No entanto, a concretização desse compromisso global continua a representar um desafio. Uma análise recente de 102 ministérios da saúde de países de rendimento baixo e médio (Cocoman et al., 2025), entre os quais Moçambique, revelou que a participação comunitária, quando existe, tende a concentrar-se nas fases de planeamento, sendo muito menos frequente na implementação e na monitoria dos serviços de saúde materna e neonatal.
A investigação em comunicação para a mudança social e comportamental aponta na mesma direcção. Durante muito tempo, muitos programas de saúde assentaram (e continuam, em muitos contextos, a assentar) num modelo de transmissão vertical da informação: os serviços e os especialistas detêm o conhecimento e o poder de decisão; às comunidades cabe receber as mensagens e adoptar os comportamentos recomendados. Décadas de investigação mostram, porém, que a informação, por si só, raramente é suficiente para transformar comportamentos.
A mudança torna-se mais provável quando a comunicação é dialógica: quando as pessoas dispõem de espaço para expressar dúvidas, confrontar percepções e normas sociais, discutir experiências e chegar às suas próprias conclusões. É a lógica, inspirada no pensamento de Paulo Freire, de construir saúde com as comunidades, e não apenas para elas. with communities, and not merely for them.
Em Mopeia, as respostas vieram das próprias comunidades
Foi precisamente isso que aconteceu em Mopeia. O objectivo das sessões realizadas em Dande, Malulo e Marruma era compreender os factores por trás de indicadores que continuam a desafiar a saúde materna e a resposta ao HIV: a chegada tardia das mulheres à primeira CPN, a reduzida participação dos homens na saúde materna, a recusa da PrEP e as dificuldades na adesão ao TARV, sobretudo entre mulheres grávidas e lactantes. E as respostas vieram das próprias comunidades.
Em Marruma, várias mulheres explicaram que a distância entre as suas residências e a unidade sanitária pesa na decisão de iniciar tardiamente a CPN. Mas, ao longo do diálogo com as equipas de saúde, as próprias participantes concluíram que os benefícios da consulta precoce superam os desafios da deslocação.
Os homens, por sua vez, reconheceram que muitas vezes não acompanham as suas parceiras àquelas consultas por não sabem a importância do seu envolvimento durante a gravidez e o período pós-parto. Mas, não só: normas sociais que atribuem à mulher toda a responsabilidade pertinente à gravidez também fazem com que os homens tenham vergonha de ser vistos em serviços de saúde materno-infantil e serem considerados menos masculinos.
As conversas revelaram um conjunto de barreiras à adesão que nem sempre são visíveis nos indicadores: falta de informação correcta e persuasiva, normas sociais que desencorajam a participação masculina, distância aos serviços de saúde e escassez de espaços de diálogo.
Do diálogo à acção
Mais do que esclarecer dúvidas, os encontros comunitários criaram espaço para a construção conjunta de soluções. No final das sessões, os líderes comunitários e religiosos assumiram compromissos concretos: reforçar a sensibilização para a CPN precoce, incentivar a participação masculina nas consultas, apoiar a identificação e o encaminhamento de mulheres grávidas para os serviços de saúde, promover a adesão à PrEP e ao TARV e fortalecer a ligação entre as comunidades e as unidades sanitárias. Os participantes manifestaram ainda abertura para acolher futuras actividades de Aconselhamento e Testagem em Saúde (ATS).
A intervenção incluiu igualmente uma sessão de trabalho com Mães Mentoras, cujo papel é essencial para aumentar a adesão aos serviços pré e pós-natais.

O trabalho não termina aqui. A C-Saúde e o SDSMAS de Mopeia continuarão a acompanhar os compromissos assumidos e a reforçar as actividades de promoção da saúde nas comunidades abrangidas.
A forte participação registada, com destaque para Marruma, que reuniu mais de uma centena de participantes, confirma aquilo que a investigação tem vindo a demonstrar: quando existe espaço para participarem, as comunidades querem discutir a sua saúde, contribuir para compreender os desafios que enfrentam e fazer parte da construção das soluções.
Perhaps that is the main lesson from Mopeia. The indicators will continue to show who arrives late, who abandons a treatment or who declines a service. But understanding why Talvez essa seja a principal lição de Mopeia. Os indicadores continuarão a mostrar quem chega tarde, quem abandona um tratamento ou quem recusa um serviço. Mas compreender porquê continua a ser uma das condições essenciais para encontrar respostas eficazes. Porque ouvir as comunidades não é apenas recolher informação: é uma forma de construir saúde juntamente com elas.
Nas unidades sanitárias apoiadas pela C-Saúde no distrito de Mopeia, no final de Junho, 9109 pessoas estavam em TARV, com uma supressão viral de 97%.



